
Véspera de aniversário significava um dia inteiro na companhia das tias, avós e tias-avós a preparar a comilança. As tarefas eram distribuídas de acordo com o talento de cada uma: havia as que preferiam os salgados e as que brilhavam na feitura dos doces.
E era na praça dos doces que as meninas ajudavam. Nossas mãos pequeninas eram com freqüência recrutadas para separar as teimosas forminhas de papel , enrolar os docinhos miúdos, passá-los no granulado, coco ralado, açúcar cristal colorido…
Embora o aroma de brigadeiros e beijinhos fosse inebriante - e o eventual assalto às bolinhas confeitadas fosse perdoado - logo logo minhas atenções se voltaram para uma tarefa que até pouco tempo me parecia a mais complexa de todas: desfiar o frango para o salpicão!
O motivo era simples: só as avós e tias-avós, com toda aquela paciência e mãos de amianto, davam conta da função. Prestidigitadoras, eficientes e detalhistas, as vós desgarravam toda a carne dos ossos e das peles fumegantes, formando montanhas e montanhas de floquinhos delicados de carne branca e macia, parecendo alheias ao falatório das tias, mas sempre à espreita de um assunto que lhes interessasse.
Confesso que estou bem longe de governar um frango, mas já arrisco uma técnica preguiçosa para preparar meu próprio desfiado:
- Basta levar os peitos de frango (prefiro sem pele nem osso, pois não sou boba nem nada) para cozer em água com os temperos que mais gostar.
- Quando estiverem cozidos, desligue o fogo e deixe-os ali, envoltos no caldo quente.
- Com a ajuda de um garfo, pesque um dos pedaços e deite-o num prato ou tábua de carne. Como ainda está quente e macio, tudo fica mais fácil.
- Espete a carne com um garfo e, com os préstimos de outro garfo, vá puxando as fibras aos bocados. Repita a operação quantas vezes for necessário.
- O Leitor e a Leitora podem definir o tamanho dos fiapos de acordo com a receita que virá.
Minha fome era tamanha que misturei um pouco do frango com iogurte, coalhada, tabasco e azeite para, com alface e tomate, compor um sanduíche urgente de pão integral. Ficou meio desconjuntado, não mereceu uma foto, não era comida de festa nem teve gosto de casa de tia, mas serviu com dignidade ao seu propósito alimentador.
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